Em meados do século XVIII algo estranho e incomum aconteceu na cidade de Marselha no sul da França. Seu povo assolado pela peste, o grande mal da época, tirou mais de 100.000 vidas, porém alguns relatos de que nem todos os desaparecidos tinham sido vítimas da doença, e sim de um acontecimento estranho e improvável. Bem, vou contar aqui a verdadeira história:
Minha primeira memória, ou meu ''nascimento'' por assim dizer foi um tanto perturbador. Eu estava caindo em direção ao mar, abri os olhos como o despertar de um sono profundo, sem entender nada e assustado, sentia meu corpo sem peso, como se estivesse dormido há anos, acordei caindo do vazio do céu em direção ao mar. O vento batia em meu rosto e eu era puxado pra baixo, não conseguia sentir mais nada a além do desespero e do medo! Não conseguia gritar, eu parecia não ter voz. A medida que me aproximava o tempo parecia lento e demorava muito, mas bati na água com uma força brutal! Afundei com um barulho ensurdecedor e caótico, com a visão escurecida eu parecia afundar e não parava mais, perdido e sem direção comecei a tentar me salvar! Como um instinto emergi à superfície daquela água fria! Olhei em volta e vi a praia bem longe. Desacreditado comecei a nadar com a sensação de que tudo aquilo era inútil! um pesadelo, uma piada de mau gosto. Já cansado e exausto me sentia desolado e esquecido. Comecei flutuar na água como um cadáver imóvel, aos poucos fui apagando, sentia o mar levar-me pra onde fosse em meu súbito desmaio.
Horas depois:
– EI! Meu senhor, o que é aquilo na praia!? Parece um homem morto, e está nu!
– Rápido! Veja se está morto!
– Não senhor! Ainda está respirando.
– Joguem-no na charrete e leve ao vilarejo, para Rachelle.
– Rápido! Veja se está morto!
– Não senhor! Ainda está respirando.
– Joguem-no na charrete e leve ao vilarejo, para Rachelle.
Fui encontrado por camponeses. Rachelle era a serva, curandeira e muito confiável do Senhor Leroy, que era uma especie de líder dos rebeldes. Despertei pela segunda vez. Minha visão estava embaçada. Estava deitado numa cama pequena, me sentia fraco e com fome. Aos poucos pude enxergar Rachelle, ela usava roupas claras um tanto sujas e gastas. Ela pôs a mão em minha testa para ver se eu estava doente ou febril, depois foi correndo buscar uma caneca com água para mim e disse: ''beba, você parece doente e desidratado''. Me inclinei um pouco para beber, sentia sede, muita sede! Bebi em goladas ininterruptas e sem respirar, foi quando aquilo desceu nauseante e tedioso! Cuspi como se fosse óleo de rícino! Perguntei:
– O que é isso que me deu?
– É apenas água, senhor, beba!
Mais uma vez, desacreditado, senti o cheiro, não havia cheiro, não havia sabor, mas tinha algo errado e acabei percebendo que esse algo de errado era comigo. Bebi devagar, era horrível, sentia um verdadeiro aquário se formando em mim e a sede era incessante! Ainda fraco permaneci calado, e Rachelle, desta vez, voltou com um prato de comida e disse: ''coma, você precisa se alimentar''. Realmente eu estava com uma fome que nunca havia sentido antes, mas meu estômago estava normal, era como se a fome viesse de outra maneira. Peguei o peixe que ela me deu e o mordi, assim que mastiguei senti algo terrível, insisti e com dificuldade consegui engolir aquilo. Em seguida recusei o restante, sentei na cama e pude perceber: não havia memória, havia apenas instintos em mim. Rachelle, por sua vez, muito curiosa:
- Quem és tu? O que aconteceu? Não parece ser daqui.
A pergunta da jovem eu já tinha feito a mim mesmo.
Com um olhar vazio e catatônico levei as mãos em meu pálido rosto:
- E-eu, eu não sei. Lembro-me de que estava caindo e...
Nesse momento, ela apontou para meu peito, ela notara algo, parecia uma cicatriz, a marca de um ''V''. Afrouxei um pouco a roupa para ver e assim que olhei aquilo senti uma fisgada na mente! Rachelle acoitou-me: ''Deite-se! Está doente. Fique aqui! Voltarei em um segundo'' Ela abriu a porta da cabana e saiu. Permaneci deitado, estava visivelmente debilitado. Nisso, um feixe de luz entrou pela porta que ficou aberta atingindo minha mão direita. A princípio normal, após alguns segundos senti minha mão esquentar incrivelmente rápido. Aquela réstia de luz me incomodava! Me deixava irritado.
Minutos depois:
- Venha, senhor, ele está aqui!
- O que!? Ele fugiu!
- Não é possível, como pode ter fugido? Estava quase morto!
- Rápido! Não deve ter ido longe.
Senhor Leroy era um homem que, assim como todos senhores da época, gostava de ter seus servos, mas estava longe de ser um tirano. Possivelmente queria me manter prisioneiro e interrogar-me. Era um estrategista, um guerrilheiro. Lutava contra o império e a favor da liberdade de seu povo. Logo convocou alguns dos seus para iniciar minha busca.Leroy era um barbudo presunçoso. Inconfundível por sua voz alta e o espírito de liderança:- Reúnam nove montarias! Quero três pela praia, três ao leste! Eudes e Leão vão comigo para a floresta! Vamos! Estão esperando o que!?
Confesso que eu não contava tanto com a intuição de Leroy, e não poderia ser por menos. Atraído pela confortante sombra das árvores lá estava eu, buscando refúgio encoberto por um manto que encontrei num baú velho daquela cabana. Era o final daquela tarde de minhas ultimas tardes. Entrei na mata fechada e fui caminhando como pude, mais uma vez desacreditado e exaurido, fui caminhando até avistar umas árvores centenárias. Decidi parar ali mesmo de baixo de umas raízes gigantes. Eu não sabia o que fazer, eu não sabia o que pensar em fazer. Meu corpo parecia sucumbir pela fome e pele sede que parecia incessante! Passaram-se uns minutos até que num ato silvestre e impensado ataquei um roedor que passava por ali! Mordi e arranquei sua cabeça! Engoli um pouco do sangue e o atirei longe.
- cof cof cof!! Tosse maldita.
Avistei de onde vinha a tosse que mais tossia. O homem bebia como um condenado, com aparência de mendigo e a barba suja. Ele havia notado a minha presença, mas não fez questão, olhando para a fogueira, depois de segundos parados ele disse:
- Se você está tentando parecer com um alquimista arrume um alfaiate melhor!
Suas roupas estão piores que as minhas, isso depois do incêndio.
- Que incêndio ?
- Eles queimaram minhas coisas no ultimo acampamento
Eu fingindo ser enturmado, dissimulei minha fala, eu não conhecia ninguém e nem a mim mesmo. Guiado por impulsos e instintos precisos eu estava prestes a começar minha busca por informação. De natureza presunçosa e forte intuição eu questionei o velho por um instante. O povo estava cansado de viver na miséria e pagar altos impostos aos nobres. Formavam clãs, viviam migrando, isolados e refugiados do ataque de soldados do império. Antes de saber mais, comecei me sentir mal, era uma fome sarcástica em um sentir de raiva e euforia!
''O estranho, em expressão de dor, caiu a ficar com um joelho dobrado e a face quase encoberta pelo capuz''
- Ãn, você está bem !? Hahaha beba isso que você melhora haha Cof cof coffc
EEI CARA!! O que há com os seus olhos ???
''De repente a garrafa cai da mão do velho''


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